sexta-feira, 31 de março de 2017

crônicas da atividade elétrica anormal

"A palavra epilepsia é de origem grega, eplmen epi = em cima e lepsem = abater, significando fulminar, abater com surpresa, ser atacado, algo que vem de cima e abate o indivíduo."
oh, you bet.

faz três meses que faço exame a torto e a direito, dois meses que tomo remédio, um dia desde que o médico mandou a real pra mim, mais claro impossível, de que eu tenho epilepsia. está lá na minha atividade cerebral, nuns garranchos muito loucos que mais parecem a caligrafia de um alien, a prova do que se desconfiava desde que comecei a dar curto-circuito em dezembro. lobo temporal esquerdo, por que me abandonaste.

tem muita coisa que me faz parar às vezes durante o dia, olhar pro horizonte e ficar pensando. não questiono exatamente por que eu ou por que agora - a resposta é meio óbvia: é porque sou eu, ué. tinha que ser. mas tem duas coisas, especificamente, que me perturbam.

é muito estranho temer algo do qual você não se lembra. acordar como se fosse de um sonho, ainda meio grogue, com pessoas ao seu redor te olhando, e não saber o que houve. acordar de roupa trocada, com alguém lhe ajudando a andar até o carro, sem saber o que aconteceu entre o momento que você foi dormir e aquele. é o depois que perturba - a lacuna entre um momento em que havia controle e aquele em que ele retorna depois de ter ido dar uma voltinha.

you see, eu nunca pude confiar muito na minha cabeça. essa é a segunda coisa. essa é, talvez, a que mais me perturbe aqui, agora, neste momento: que tanta coisa que eu já tinha assumido que fosse psicológica seja neurológica. os dias ruins, os cheiros estranhos, os déjà-vu. o não estar aqui. o ter que se concentrar pra não ficar totalmente offline. existem mais de 40 tipos de convulsões, they say. existem 65 milhões de pessoas no mundo com epilepsia, they say. it's not a big deal. exceto que eu não tenho controle.

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

metamorphosis

eu tenho um caderninho que tenho muita vontade de queimar, porque é o meu caderninho de coisas tristes e tem coisas na vida que só com fogo se expurga. toda vez que eu ficava triste, daquela tristeza de roer os ossos mesmo, eu pegava e escrevia ou desenhava alguma coisa. essa vontade de me livrar dele, no entanto, hoje em dia é mais pelo valor simbólico do que pelo sentimental.

é um sentimento estranho esse que eu tenho hoje em dia, de pegar umas coisas que eu escrevia há alguns meses ou talvez anos e não me reconhecer mais ali. lembro do que foi, de como me senti, mas já não faz mais sentido. já passou ou, o que é mais surpreendente ainda, já sei lidar. não tenho a ilusão de ser uma Pessoa Equilibrada ou até de um dia conseguir ser, mas sei que alguma parte essencial de mim mudou de alguma forma. reconheço nisso o surgimento de uma pessoa que sempre existiu, mas que eu nunca tive oportunidade de conhecer até a vida adulta. e como diria o roberto carlos, esse cara sou eu.

os fantasmas que me perseguem ainda existem. talvez eu ainda esteja passando pelo luto pela pessoa que me encarreguei de construir pra me proteger, mas o tempo dela já passou. vocês me desculpem a sinceridade, mas sempre vou recorrer ao momento em que supernatural mandou aquela real, já mandada tantas outras vezes em outras ficções, de que it doesn't matter what you are, it only matters what you do. and i wanna do better.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

baby shoes, never worn

esses dias eu tava escrevendo uma carta pra um amigo meu. faz tempo que não escrevo cartas, em parte porque da última vez que enviei uma o resultado não foi muito favorável, em parte porque hoje em dia meu pulso dói quando escrevo. o fato é que uns meses atrás fizemos o seguinte: trocamos as cartas que recebemos ao longo dos anos pra que pudéssemos ler o que escrevemos um pro outro -- ideia dele, porque eu não curto essas coisas de relembrar passados. mas dia desses finalmente peguei pra ler. é impressionante; parece que estamos falando dos mesmos assuntos desde os catorze, quinze anos. as inquietações não mudaram tanto assim de 2007 pra cá; o que mudou foi a intensidade, o ângulo, o jeito de lidar. não deixa de ser interessante. e assustador.

.x.

nesse final de semana, num intervalo de vinte e quatro horas -- talvez um pouco menos --, o filho de uma prima minha nasceu e morreu. é uma imagem que tenho certeza que vai me assombrar pra sempre; ela segurando o caixãozinho no colo, na cadeira de rodas, recém-operada mas indo pro enterro mesmo assim. as pessoas passando, vindas de outros velórios, e olhando, dizendo "ah, é um anjinho". nunca aprendi a lidar bem com essa aleatoriedade, com a fragilidade, a facilidade que é um dia você estar aqui e no outro nunca mais. children just shouldn't be supposed to die.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

poética

tô lendo sobre spielberg por causa de um trabalho sobre a cor púrpura, sobre como ele começou a filmar e pá. o cara pegou uma câmera e saiu filmando as parada dele. hoje eu tava nadando de costas, cinco e tanto da tarde, e pensando. se eu fosse diretor de cinema era assim mesmo que ia começar meu filme: só o céu azul do ponto de vista da pessoa nadando de costas; só a paz de ficar olhando pra cima, tomar como referência uma nuvem, ou a lua que tá começando a aparecer, e ir batendo perna até chegar do outro lado. só o som do ar entrando e saindo do pulmões e dos pés na água; não existe mais nada no mundo. era assim que começava.

.x. 

no começo do semestre uma professora de literatura perguntou quem gostava de poesia. uns três gatos pingados levantaram a mão; eu não me manifestei por medinho de ela perguntar poetas favoritos e pá (acho que perguntou mesmo). eu diria álvaro de campos e richard siken, apenas e tão somente. poesia não é bem o meu forte; vai ver eu não sei apreciar o negócio ou, e essa é a teoria mais aceita por mim atualmente, vai ver precisa bater tão fundo que não tem mais volta. costumavam me dizer que o que eu escrevia era prosa poética; sempre achei isso meio irônico. o fato é que, curiosamente, eu tenho escrito bastante... poesia. pelo menos eu chamo de poesia, talvez haja três gatos pingados por aí que também achariam. é assim que eu escrevo hoje em dia: com uma sinceridade que não consigo aguentar. por muito tempo eu quis conseguir fazer isso, ir catar lá dentro o que tá me roendo e colocar pra fora. o problema é que você cava e cava e parece que o buraco sempre é mais embaixo. 

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

a vida, os livros e o resto (não necessariamente nessa ordem)

li doze livros ano passado. em comparação com os mais de vinte que eu conseguia ler uns anos atrás, não é muito, mas considerando a minha completa falta de tempo do ano retrasado pra cá, até que foi bom (em 2014 foram oito). combinei com brother Ewerton, então, que leríamos vinte e quatro livros esse ano. tem guidelines e tudo.

eu ia dizer quais foram os melhores que eu li ano passado, mas aí vi que felizmente quase todos foram muito além do que eu esperava. uma das causas da minha dificuldade em ler e ver filmes do ano retrasado pra cá foi uma sincera e absoluta falta de tempo; com duas faculdades e dois empregos, a única coisa que eu queria fazer na vida era dormir ou não precisar pensar demais quando tivesse em casa. não vou dizer que meu tempo tenha melhorado muito, mas me forcei a ler mesmo assim. daí a importância de escolher livros que eu realmente quisesse terminar. foi de pouquinho em pouquinho que consegui ler pride and prejudice (foram meses e meses), que eu sinceramente não achava que fosse gostar tanto quanto gostei. teve speak, teve você é minha mãe?, teve crush, teve a redoma de vidro, teve to kill a mockingbird. foi bom o negócio. (aqui a lista, embora meu listography esteja mais desatualizado do que não sei nem o quê)

enquanto isso vou lendo/relendo também os que preciso pra faculdade (que no momento são o cair da noite, half of a yellow sun e the color purple... entre outros. as a matter of fact é a minha meta de leitura no skoob) e esperando os livros que comprei no book depository chegarem. comprei war of the foxes e johnny got his gun no começo de dezembro; imagino que eles estejam por aí no meio do mundo até agora. da última vez que comprei levou uns três meses pra chegar.

*

da série coisas que não mencionei no último post, mas que foram importantes: aprendi a dirigir (de fato, já vai fazer um ano) e "saí" da engenharia. entre aspas porque ainda não tranquei nem nada, mas parei de ir. já vai tarde.

esse ano vou dar aula pra crianças maiores, de oito a onze anos. vamos ver no que vai dar. somando as férias da escola com as férias do meu ~trabalho primário~, sou uma pessoa com tempo livre. olha aí a putaria. tirei essa última semana de férias pra acordar cedo e adiantar coisas, já que sou uma pessoa muito esperta e passei os últimos vinte dias indo dormir cinco horas da manhã e fodendo meu relógio todinho.

(eu tirei férias três vezes ano passado, acho que esse fenômeno não vai mais acontecer tão cedo. esses últimos vinte dias foram férias coletivas, então pra esse ano só sobraram outros dez dias /sad)

aliás, comecei um curso de espanhol e cheguei a conclusão de que é difícil. o costume e a facilidade com o inglês me desprepararam totalmente pra lidar com algo que eu tenha que fazer um esforço real pra pegar; o mais constrangedor é que espanhol seja uma língua tão próxima do português e eu ainda ache inglês mil vezes mais fácil. go figure.

tem um post no tumblr que diz mais ou menos assim: 2015 was my character development year, 2016 is action and story progression. acho que resume bem o sentimento.

domingo, 3 de janeiro de 2016

it takes and it takes and it takes

não sou muito fã de fazer retrospectivas de anos passados nem metas pra anos seguintes porque nunca tive uma relação muito boa com o tempo. por algum motivo eu passo pela vida sentindo o tempo escorrer pelas minhas mãos na mesma medida em que ele não passa rápido o suficiente. 

eu não tenho uma memória muito boa. se não tiver alguma coisa pra eu anotar do meu lado sempre eu esqueço literalmente tudo que tenho que fazer (good thing i actually have a desk at work i guess). eu confundo os anos, esqueço o que aconteceu ou minha mente arquiva numa data errada, as coisas se misturam, eventualmente elas se perdem. talvez por isso tantos diários, tantos blogs e cadernos e text posts; a gente vai documentando do jeito que pode.

uns meses atrás eu fui a praia com um amigo meu. é sempre uma experiência muito emocionante porque ele deixa o carro lá na baixa da égua e vamos os dois, high as fucking kite, desbravar as areias. o mar me fascina por motivos que não sei explicar. tenho a impressão de que é mais ou menos o mesmo sentimento em relação ao espaço; uma imensidão quase incompreensível. do outro lado do mar tem outra faixa de terra em algum lugar, você só não consegue alcançar com os olhos. no espaço tem um absurdo de outras coisas que o olho não alcança, que a imaginação não alcança, não consegue conceber. se sentir pequeno desse jeito é pra mim um sopro de vida. é pra mim o que mais se aproxima de religião no meio do cinismo de todos os outros aspectos da vida.

o ano passado foi difícil em muitos aspectos, mas acho que se tem uma coisa que eu posso dizer pra resumir o que houve de bom (que felizmente também não foi pouco) é que: eu fiz as pazes comigo mesmo em tanta coisa, mas tanta coisa, que eu não sabia que ainda seria possível nessa vida. tem sido um processo longo e curiosamente recompensador, que eu reconheço nessa pessoa--que mora em mim mas que eu nunca tinha conhecido--emergindo pra superfície.


sábado, 19 de dezembro de 2015

whateverrrrrrrrrrr

eu já fui uma pessoa mais eloquente.

hoje em dia eu ainda consigo tirar um paper out of my ass se necessário, ainda sei enrolar um texto acadêmico, ainda sei escrever textão. mas eu não sei mais escrever - ou falar - nada além disso.

tá certo que nunca fui muito de falar. mas eu sabia o que queria dizer, e podia escrever. hoje as ideias se enrolam na minha cabeça, dá um branco, não consigo dizer as coisas mais óbvias. não consigo escrever as coisas mais óbvias. tudo sai assim, em fragmentos, e então eu esqueço a próxima parte, e então eu não sei mais pra onde ir ou por onde voltar.

eu escrevi algumas coisas, though. aquelas coisas que você escreve duas horas da manhã e depois quer tocar fogo porque é pessoal demais até pra você mesmo.

não sei mais o que dizer. ain't that funny.